Extraído, com adaptações por Alexandre Pedrassoli, do livro “Psicologia do Futuro”

Teoria e Prática da Respiração Holotrópica

Nos últimos vinte anos, minha esposa Christina e eu desenvolvemos uma abordagem para a terapia e a auto-exploração que chamamos de “respiração holotrópica”. Ela induz estados holotrópicos muito poderosos através de uma combinação de meios muito simples – respiração acelerada, música evocativa e uma técnica de trabalho corporal que ajuda a liberar bloqueios bioenergéticos e emocionais residuais. Em sua teoria e prática, esse método une e integra vários elementos de tradições antigas e aborígenes, filosofias espirituais orientais e psicologia profunda do ocidente.

O Poder de Cura da Respiração

A utilização de várias técnicas de respiração com propósitos religiosos e curativos pode ser encontrada no despertar da história da humanidade. Nas culturas antigas e pré-industriais, a respiração e o respirar desempenharam um importante papel em cosmologia, mitologia e filosofia, assim como foram uma ferramenta importante nas práticas rituais e espirituais. Desde o início da história, quase todos os principais sistemas psicoespirituais que buscam compreender a natureza humana têm visto a respiração como um elo crucial entre corpo, mente e espírito. Isso reflete-se claramente nas palavras que significam ‘respiração’ em várias línguas.

Na antiga literatura indiana, o termo prana significava não apenas respiração física e ar, mas também a essência sagrada da vida. Similarmente, na tradicional medicina chinesa, a palavra chi refere-se essência cósmica e à energia da vida, assim como ao ar natural
que respiramos com nossos pulmões. No Japão, a palavra correspondente é ki. O ki representa um papel de extrema importância nas práticas espirituais japonesas e nas artes marciais. Na Grécia antiga, a palavra pneuma significava tanto ar, como respiração, e espírito ou essência da vida. Os gregos também viam a respiração em relação de proximidade com a psique. O termo phren era usado tanto para o diafragma, o maior músculo envolvido na respiração, quanto para a mente (como podemos ver no termo esquizofrenia = mente cindida).

Na antiga tradição hebraica, a mesma palavra, ruach, significava respiração e espírito criativo, que eram vistos como idênticos. Em latim, o mesmo nome era usado para respiração e espírito – spiritus. Similarmente, nas línguas eslavas, espírito e respiração têm a mesma raiz linguística.

Há séculos que se sabe ser possível influenciar a consciência com técnicas que envolvem a respiração. Os procedimentos que têm sido usados para esse propósito, por várias culturas antigas e não-ocidentais, cobrem um âmbito muito grande, desde interferências drásticas na respiração até os exercícios sutis e sofisticados de várias tradições espirituais. Assim, a forma original do batismo, praticada pelos essênios, envolvia uma submersão forçada do neófito na água por um longo período. Isso resultava em uma poderosa experiência de morte e renascimento.

Pudemos confirmar, repetidas vezes, a observação de Wilhelm Reich de que as resistências e defesas psicológicas estão associadas à restrição da respiração (Reich, 1961). O aumento deliberado do compasso da respiração, tipicamente, relaxa as defesas psicológicas e leva à liberação e à emergência de materiais inconscientes (e superconscientes). A não ser que se tenha testemunhado ou experimentado esse processo pessoalmente, é difícil acreditar, com base puramente teórica, no poder e na eficácia dessa técnica.

O Potencial de Cura da Música

Na respiração holotrópica, o efeito de alteração da consciência ocasionado pela respiração é combinado com música evocativa. Como a respiração, a música e outras formas de tecnologia sonora têm sido usadas por milênios como poderosas ferramentas em práticas rituais e espirituais. Desde tempos imemoriais, o monótono soul de tambores, cânticos e outras técnicas de produção de som têm sido as principais ferramentas de xamãs em diferentes partes do mundo. Muitas culturas pré-industriais desenvolveram, de maneira bastante independente, ritmos de tambores que em experimentos laboratoriais têm notáveis efeitos sobre a atividade elétrica do cérebro (Jilek, 1974; Neher; 1961, 1962).

Em muitas culturas, a tecnologia sonora tem sido usada especificamente com propósitos curativos no contexto de intrincadas cerimônias. Os rituais de cura navajo, conduzidos por cantores treinados, têm uma complexidade assombrosa que já foi comparada às partituras das óperas de Wagner. A dança de transe dos kung bushmen, do deserto Kalahari na África, tem um enorme poder de cura, como já foi documentado em vários filmes e estudos antropológicos (Lee & Devore, 1976; Katz, 1976). O potencial de cura dos sincréticos rituais religiosos do Caribe e da América do Sul, como a santeria cubana ou a umbanda brasileira, é reconhecido nesses países por muitos profissionais que tiveram a tradicional formação ocidental. Casos notáveis de cura emocional e psicossomática ocorrem nos encontros de grupos cristãos que usam música, cânticos e dança, como os Domadores de Serpentes, ou as Holy Ghost People (Pessoas do Espírito Santo) e os pregadores ou membros da Igreja Pentecostal.

A música cuidadosamente selecionada parece ser valiosa principalmente nos estados holotrópicos de consciência, nos quais tem várias funções importantes. Ela mobiliza emoções associadas a memórias reprimidas, leva-as à superfície e facilita sua expressão. Ajuda a abrir a porta do inconsciente, intensifica e aprofunda o processo, e fornece um contexto significativo para a experiência. O contínuo fluxo de música cria uma onda portadora que ajuda o indivíduo a passar por experiências e impasses difíceis, superar as defesas psicológicas, render-se e soltar-se. Nas sessões de respiração holotrópica, que costumam ser conduzidas em grupo, a música tem uma função adicional: ela mascara os sons emitidos pelos participantes e os entrelaça em uma dinâmica estética.

(continua…)

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2 Comentários sobre “Respiração Holotrópica (por Stanislav Grof)”

  1. Marcelo Coutinho disse:

    Boa Noite,

    Por gentileza, sou do Rio e gostaria de saber se você conhece algum profissional para que eu possa fazer respiração holotrópica? Poderia me passar o contato caso conheça?
    Obrigado,
    Abraço,
    Marcelo

    • Alexandre Pedrassoli disse:

      Olá Marcelo,
      Não conheço ninguém do Rio, mas você pode tentar contato com a psicóloga Doucy Douek em São Paulo (o telefone dela vc acha no Google). A Doucy foi quem trouxe a Respiração Holotrópica para o Brasil. Ela certamente pode te indicar alguém no Rio.
      Um abraço e boa sorte.

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