O que é psicologia (para leigos)
Por Alexandre Pedrassoli
(continuação…)
A Primeira Força
A primeira força em Psicologia é o Behaviorismo, ou Comportamentalismo, ou ainda Psicologia Comportamental. Para esta força caberia perfeitamente aquela definição que encontramos no dicionário: “estudo do comportamento humano ou animal”. A abordagem comportamental surgiu trazendo em si a noção de que era possível prever o comportamento humano ou animal, pois o comportamento era sempre determinado por uma série de variáveis. Se fosse possível conhecer todas as variáveis, seria possível prever o comportamento do indivíduo. Também seria possível controlar seu comportamento, manipulando-se as variáveis que determinavam aquele comportamento. Afirma que o ser humano é condicionado, ou seja, seu comportamento é aprendido e ele tende a repeti-lo quando recebe uma recompensa por ele e tende a abandoná-lo quando não recebe nada em troca ou quando recebe uma punição.
Um exemplo clássico é o da criança birrenta. A criança pede um doce. A mãe diz que não vai dar. A criança começa então a gritar, espernear, se joga no chão e puxa os cabelos (é, meu amigo, é provável que você já tenha feito isso um dia, lembra?). Aí a mãe se apavora, morre de vergonha e, para acabar com aquela cena de horror, vai correndo pegar o doce para a criança. A criança, instantaneamente exorcizada, pára de chorar e se empanturra com a guloseima. Pergunta: qual será o comportamento da criança da próxima vez que ela quiser alguma coisa e a mãe recusar? É previsível: birra de novo! Por quê? Porque da primeira vez a birra foi recompensada com o doce. A mãe desavisada acha que resolveu o problema mas o que fez foi reforçar aquele comportamento da criança. Pode-se eliminar esse comportamento indesejável? Sim, elimine-se a recompensa e o comportamento será extinto. Se a mãe tolerar algumas vezes a birra da criança sem dar o doce, a criança vai deixar de fazer birra porque percebe que aquele comportamento não lhe traz nenhum ganho. Portanto, segundo esse raciocínio é possível não só prever mas também controlar o comportamento de um indivíduo. Se você já assistiu Laranja Mecânica, saiba que o filme é uma crítica às técnicas comportamentais de modelagem do comportamento humano, que estavam em alta na época do filme (1971). Se não assistiu, assista e você vai entender. Mas vá preparado: o filme tem algumas cenas bem violentas. Depois não diga que não avisei.
A abordagem comportamental utilizou experimentos com animais para fundamentar as bases do comportamento humano. É muito criticada por isso pelas outras abordagens, que a julgam uma visão muito simplista do ser humano, por reduzi-lo a suas semelhanças com o animal e a seus comportamentos condicionados, perdendo de vista toda a riqueza da condição humana. Um dos grandes nomes do Behaviorismo, B. F. Skinner, assim responde às críticas de que o modelo comportamental não admite liberdade de escolha ao ser humano:
Eu creio que uma análise científica do comportamento deve supor que o comportamento de uma pessoa está controlado por suas histórias genética e ambiental, e não pela pessoa mesma como agente iniciador e criativo; [...] não podemos provar que o comportamento humano como um todo está completamente determinado, mas esta proposição vai-se fazendo mais plausível à medida em que se acumulam os fatos, e creio que há chegado ao ponto em que se deve considerar seriamente suas implicações.
Ou seja, ele não rebate as críticas. Ele supõe, embora não afirme categoricamente, que de que o ser humano não é “agente iniciar e criativo” de suas ações, pois seu comportamento está determinado por sua genética e por tudo que ele aprendeu anteriormente na sua relação com o ambiente e com as pessoas à sua volta. Dentro desta perspectiva, de fato, não é possível pensar em conceitos como “liberdade” ou “criatividade” como normalmente pensamos.
A psicologia comportamental representa a tentativa mais bem-sucedida de adequar a psicologia ao modelo tradicional de ciência. Faz críticas a outras linhas justamente porque as demais não se encaixam perfeitamente nesse modelo de ciência, e recebe críticas dos que a julgam excessivamente rígida e presa a um modelo de ciência em extinção, baseado nas ciências naturais.
A Segunda Força
A segunda força é a Psicanálise, criada por Sigmund Freud, por volta de 1900. A grande inovação trazida por Freud foi introduzir na psicologia a noção do inconsciente. Segundo a visão psicanalítica, a mente humana é composta por uma parte consciente e uma parte inconsciente. A parte consciente contém todos os conhecimentos e informações que utilizamos conscientemente. Nossos pensamentos, emoções conhecidas, memórias, reflexões e devaneios estão todos lá. Mas essa é apenas uma parte muito pequena da mente. A outra parte, o inconsciente, é muito maior que a parte consciente. Lá estão nossos instintos e impulsos primitivos, e as coisas que não aceitamos sobre nós mesmos. Normalmente não temos acesso a essa parte, mas ela funciona e governa nossos comportamentos, independente de nossa vontade. Enquanto essa parte desconhecida governa nosso comportamento, não temos controle pleno sobre nossos atos. O trabalho do terapeuta então é trazer os conteúdos inconscientes para a consciência, de modo que tenhamos a possibilidade de tomar decisões mais de acordo com nossa vontade consciente.
Freud identificou e criou algumas formas de acessar o inconsciente: inicialmente trabalhou com a hipnose, mas posteriormente abandonou-a por encontrar outros métodos mais eficientes. Os principais são os sonhos, o método de associação livre e os atos falhos ou lapsos. Freud afirmou que os sonhos são uma realização de desejos inconscientes. No sonho, acontece aquilo que você deseja. Mas sempre é um desejo que você mesmo não aceita que possui, normalmente por razões morais. Por exemplo, você teve uma séria briga com seu pai e no mesmo dia sonhou que ele estava caindo num abismo. Isso pode indicar que naquele momento você desejou a morte de seu pai. Por ser um desejo moralmente inaceitável, ele permanece inconsciente e se realiza através do sonho. É claro que este é um exemplo bem didático e simplista. Normalmente, mesmo nos sonhos o desejo inconsciente aparece de forma bem mais disfarçada. Um outro método de acesso ao inconsciente é a associação livre. Esse método foi criado por Freud e consiste em pedir que o paciente vá falando livremente sobre qualquer assunto a partir de um dado tema. Analisando as divagações do paciente por assuntos aparentemente sem qualquer relação entre si, pode-se encontrar as conexões inconscientes. Por isso aquela imagem clássica do paciente deitado no divã e falando sem parar, enquanto o terapeuta só escuta.
O homem é visto por Freud como um ser que busca o prazer e evita o desprazer, guiado fundamentalmente por instintos primitivos. Freud era psiquiatra e seus estudos foram quase todos feitos sobre pessoas com distúrbios psíquicos. É criticado, portanto, por focalizar excessivamente a doença e não a saúde. A psicanálise é ainda considerada por muitos uma abordagem não científica, pois alegam que não se pode comprovar a existência do inconsciente. Outra crítica refere-se ao que se chama “determinismo psíquico”, ou seja, o homem não tem liberdade de escolha, uma vez que está sempre sendo guiado por desejos inconscientes.
(continua…)
Tags: behaviorismo, psicanálise, psicologia, psicologia humanista, psicologia transpessoal
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Oie, vou fazer vestibular esse ano e pretendo cursar psicologia. Essa matéria reforçou mais ainda a minha escolha! Beijos
Suka,
Obrigado pelo comentário.
Que bom! Fico feliz que o texto tenha te incentivado.
Um abraço e boa sorte em seu curso.
Gostei muito do texto! Sou musicoterapeuta e fundamento meu trabalho especialmente nas teorias de Nordoff e Robbins, dois importantes clínicos e teóricos que foram profundamente influenciados pelo humanismo e buscaram utilizar a música para despertar esse potencial criativo e auto-realizador das pessoas. Quando dois indivíduos se encontram na música realmente acontecem esses momentos mágicos tbm descritos pela psicologia transpessoal, onde as dimenssões da realidade interior e exterior se fundem e que podemos nos sentir parte de um todo, ainda que ao mesmo tempo estejamos cada vez mais próximos de nossa individualidade. Realmente especial.
Gabriela
Sim, a música é um componente importantíssimo na maioria das técnicas transpessoais. Talvez você se interesse pelo trabalho de Stanislav Grof. Tem algo sobre ele aqui: http://www.buscadorerrante.com.....lotropica/
Obrigado pelo comentário
Um abraço
Estou no 1º semestre de Psico e estudando história da Psico, o que inicialmente estava sendo meio confuso, mas seus textos são bastante esclarecedores. Muito obrigado pela ajuda!
Dúvidas: Existe restrições em relação a formação? Por exemplo: Tenho que seguir uma linha específica? Eu não posso decidir de acordo com a situação de que maneira irei proceder, seja ela comportamental, humanista, analitica, terapias alternativas…etc?
Muuuuuuuito Obrigado!
Cara Michele, bom dia.
Obrigado pela sua pergunta no site
Não há restrição quanto à formação. Mas como vc ainda está no 1o. ano, é bom que você conheça pelo menos uma linha muito bem. Escolha a que mais faz sentido para sua própria vida. É difícil misturar tudo logo de cara. Mais para frente, vc vai começar a compreender bem os limites de cada abordagem e poderá começar a relacionar duas ou mais. Veja abaixo resposta que encaminhei para uma questão parecida.
Estou à disposição se quiser conversar.
Um grande abraço e boa sorte em seu curso!
Muito legal esses textos!
Me ajudaram muito….
Obrigado pelo comentário Geisi. Um grande abraço.
oi ate ai tu tens muita razão sobre a psicologia, cabe nós os psicologos organizar uma conferencia para ser debater sobre o problema da definição.
porque cada um tem a sua maneira de entender e de racionar mias se calhar a ideia de cada um não falha mto sobre o que entendeu sobre a psicologia
Oi joelma,
Acho que o problema de definição deve ser percebido, mas não sei se deve ser resolvido pela criação de uma “definição definitiva”. A multiplicidade de definições é inerente à própria diversidade humana. O que deveria ser eliminado são as brigas entre as diversas “facções” dentro da psicologia. Isso sim é falta de tolerância com quem pensa diferente.
Obrigado pelo comentário.
muito esclarecedor o texto, complementou consideravelmente a aula que tive hoje na faculdade,pois sou estudante de psicologia.1 ano Faço psicoterapia e se não estiver enganado passei por experiencia determinista tanto do mundo exterior como do mundo interior, e hoje sinto essa liberdade de escolha para decidir por conta propria o que é bom para meu crescimento é como se eu estivesse um desapego.penso em ser essa experiencia transpessoal. Muito obrigado pelo texto sempre sera bem vindo.
Emerson,
Obrigado pelos comentários.
É um tanto difícil descrever a experiência transpessoal. O transpessoal trascende também a lógica cartesiana, por isso faltam palavras para descrever a experiência. Boa sorte em seus estudos e em sua busca pessoal.
Um abraço
depois de lê com atenção, observei que realmente é difícil definir esse ramo. Mas de qualquer forma é fascinante e gostoso de lê sobre o assunto
Obrigado naza, pelos comentários.
Também acho o assunto fascinante!
Um abraço
Excelente texto, muito bem escrito e fundamentado.
Sou profissional da Ciência da Computação, iniciando mestrado, com 10 anos de profissão, coisa e tal. Desde os idos tempos do segundo grau, minha cabeça esteve focada no estudo da Psicologia. À época lia Jung, e confesso que hoje em dia não sabia nem o que lia, mas me sentia muito atraído pelas idéias e forma de pensar. Como comecei nesta história de computação muito cedo – com 15 anos de idade, profissionalmente mesmo – acabei naturalmente seguindo o caminho. Mas tem aquela coisa lá no inconsciente que me diz que tenho que cursar Psicologia e cessar essa curiosidade.
Pois bem, a breve introdução serviu somente para contextualizar o elogio. Repetindo: seu texto é sensacional e diria que “básico” para qualquer leigo no assunto. Apesar de envolto em leituras técnicas da área há algum tempo, sua visão da ciência esclarece de forma embasada.
Vale até uma twitada!
Olá Josias, obrigado pelo comentário e pelos elogios (sem contar a divulgação
).
Temos muito em comum. Também me formei em Ciências da Computação e só fui pra Psicologia depois de quase 9 anos na informática.
Hoje trabalho como psicólogo e gosto muito mais do que faço.
Quem sabe você não se arrisca também e acaba gostando?
Boa sorte!
Alexandre,
li seus artigos sobre, psicologia humanista e achei mto interessante, vc consegue relacionar a psicologia humanista humanista com o romantismo???
Olá luciene,
Obrigado pelo comentário.
Eu não saberia bem como relacionar o romantismo com o movimento humanista na psicologia. Aí vão alguns palpites:
Pelo que eu conheça, a influência do romantismo na psicologia estaria inicialmente ligado às idéias de Brentano e Dilthey.
Brentano foi professor de Husserl, e Husserl fundou a fenomenologia, que influenciou o movimento humanista na psicologia.
Procure também informações sobre o “romantismo alemão” e o “idealismo alemão”.
É uma dica de como vc poderia buscar uma associação. Espero que ajude.
Boa sorte!
Faço terapia ha algum tempo, desde que descobri ter Transtorno Bipolar, e ja conheci psicologas de diferentes correntes…
Atualmente faço terapia com uma psicóloga que tem sua formação baseada na corrente humanista.
Tive curiosidade em conhecer mais sobre o que seria essa corrente humanista e porisso procurei o site.
Foi interessante ler as definições sobre as diversas correntes e por isso gostaria de agradecer e parabenizá-lo pela iniciativa.
Obrigada e muito sucesso!
Obrigado pelo comentário Marilyn. Fico feliz que tenha gostado.
Boa sorte em sua busca pessoal!
Olá Alexandre,
Não tinha conhecimento desse site, estava procurando artigos referente a psicologia e Skinner e acabei me deparando com artigos interessantes e de facil compreensão.
Eu pretendo fazer faculdade de psicologia mas de psicologia nada sei e li seu texto “O q é psicologia? para leigos” e realmente alimentou minha curiosidade e acabei pegando os outros textos (praticamente todos) para ler.
Obrigada pelo texto. Realmente fascinante.
Ps. Vou estudar mais sobre o assunto, ler as outras matérias e volto aqui =).
Obrigada novamente e Bom Final de semana.
Obrigado pelo comentário Daiana. Boa sorte em seus estudos.
Eu gostei muito da sua definição da Psicologia, eu pretendo fazer faculdade e o que li aqui me deixou mais intrigado para saber mais afundo sobre as Forças que movem os pensamentos psicológicos.
Muito bom mesmo!
Obrigado José Guilherme. Boa sorte em sua faculdade.
Muito bom!
oi esse etudo foi muito inportante para min e legal